- Dona, tem pão velho? Eu, ainda bocejando, baixei os olhos pra poder encarar o menino, de uns oito, nove anos, olhos vivos, descalço e com um cabelo loiro escuro cacheado e sujo...
- Tenho não, garoto – respondi, apenas pra que ele fosse embora logo e eu pudesse voltar pro aconchego de minha cama.
- E roupa que seu filho não usa mais, tem?
- Meus filhos já são grandes – suspirei... as roupas deles não serviriam em você. - Então me dê um copo de leite... leite tem?
- Não, não tenho... respondi, já um tanto impaciente. Mas o garotinho não desistiu. - Um copo d’água... pronto! Isso tem que ter!
Me dá um copo d’água? Cansada e louca pra me ver livre do garotinho, respondi, já com uma ponta de rispidez. - Não, não tem! A água acabou, justo hoje!
O garotinho, com um jeitinho irônico, olhou pra mim firmemente e disse:
- Ô dona! Intão vem pedi cum eu!
Espantada com a pronta resposta do garoto e com o ar de galhofa dele, estourei numa gargalhada.
Abaixando-me, olhei nos olhos do garoto e perguntei:
- Você não tem família? Deveria estar em casa a uma hora dessas. Ainda está escuro.
Passavam dez minutos das seis horas, horário de verão, e o sol ainda não tinha dado as caras. Além do mais a manhã estava abafada e com o céu nublado... Decerto, choveria mais tarde.
- Tenho casa sim, dona... e é looonge!
- E o que você está fazendo aqui, tão longe?
- Minha mãe não tem comida em casa. Então, tenho que sair andando e pedir. E perto da minha casa, todos são pobres também.
- E o seu pai?
- Meu pai foi embora e deixou nóis tudo sozinho.
- Não vai à escola?
- Vô não... num temo dinheiro pra comprar caderno.
Prestando atenção no olhar do garoto, consegui enxergar, lá no fundo, a tristeza, o abandono, a falta de amor.
- E você fica todos os dias na rua?
- Fico sim, dona. Se não pedir comida, fico com fome. E ainda tenho que conseguir alguma coisa pros meus irmão menô... Tem um que é bebê ainda, purisso pedi o leite. Ia virá aqui e levá, olhe...
E tirou de uma sacolinha uma garrafa de refrigerante vazia, com um bico de borracha, já bem gasto, no gargalo. Abaixei-me e passei a mão na cabeça do garoto. Ele sorriu largamente.
- Vou buscar o pão, espere um pouco. Serve pão novo?
– Meu marido tinha deixado o pacote da padaria, com pão novinho, em cima da bancada da cozinha, antes de sair para o trabalho. E sorri para ele também. Afinal, já havia mesmo perdido o sono. Alargando ainda mais o sorriso, o garoto, pra minha surpresa, disse:
- Precisa não, dona... a senhora já conversô cumigo! Ninguém pára pra conversá cumigo e isso foi legal.
A resposta do menino mexeu comigo.
- Vou buscar um lanche, mesmo assim – falei – E, enquanto caminhava até à cozinha, pra fazer um café reforçado pro garoto, pensei em como uma simples conversa pode fazer diferença na vida de alguém.
Aquele menino tinha fome e precisava de tantas coisas básicas, como leite para o irmão, uma camisa pra substituir a rasgada e suja que usava...Precisava de pão e de carinho... mas ele se contentou com uma conversa! Com a atenção de alguém que, mesmo de má vontade a princípio, parou para escutar o que ele tinha a dizer. Alguém que se abaixou para olhar diretamente nos seus olhos e que lhe fez um ligeiro afago nos cabelos.
Como um raio, absorvi toda a solidão e tristeza daquela criança; a falta de amor e de aconchego, a falta de abraço e de carinho. Aquela criança não tinha boa alimentação, não tinha brinquedos, não tinha livros e cadernos, não tinha roupa adequada para a estação. Não tinha pai, a mãe não marcava presença e ainda se julgava responsável pelos irmãos menores. Não tinha sonhos, não tinha alegria. E uma simples palavra amiga encheu de luz a sua manhã, fez brilhar os seus olhinhos castanhos, muito claros, e colocou um sorriso nos seus lábios.
Como doeu, amados, aquela resposta: “Precisa trazer mais não... a senhora já falou comigo!” Que mágico condão tem a palavra! Que poder maravilhoso tem o gesto amigo. Que faculdade de mudar uma situação tem o ouvir com amor! Hoje, ainda tocam em minha casa, de vez em quando, para pedir pão velho. E eu continuo não gostando de atender, tendo preguiça de preparar uma refeição, principalmente se for de manhã, porque gosto de dormir e de acordar tarde. Mas aprendi com aquela criança a espantar a preguiça e má vontade e a repartir o pão. Não só o pão dormido com café ou leite, mas o pão novo. Não o pão quentinho da padaria, mas o pão novo da Palavra que transforma e anima.
O Pão Vivo partilhado em pequenos diálogos, o Pão que alimenta através de gestos simples e afetuosos, de olhares de compaixão, de acolhimento e amor. E esse pão jamais fica velho, porque ele se renova a cada manhã; porque ele é, a cada dia, posto a assar na fornalha amorosa do coração de todos os que creem n’Aquele que é o Pão Vivo que desceu do céu; n’Aquele que disse: “EU SOU O PÃO DA VIDA. O que crê em mim, jamais terá fome”. É isto, amados. Aprendi a repartir, sempre, Jesus Cristo: o Pão da Vida!
| Lisieux Souza | ||||||||
| Pastora, mãe da Anna Elisa e Revisora do Juvemetodista BLOG. | ||||||||
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