Essa semana li uma matéria em um jornal que contava histórias de crianças e adolescentes que passam o dia na rua e, à noite, vão para casa. Eles passam a manhã toda e parte da tarde pedindo dinheiro ou roubando para comprar tiner ou crack. O curioso é que a matéria dizia que elas escolheram "por livre e espontânea vontade" estar ali e que, nesse tempo, acabam sendo aliciadas por adultos que as usam para fazer pequenos furtos ou para pedir algum trocado, supostamente para comer.
O que me veio à cabeça e fez com que eu escolhesse esse tema para escrever foi: SERÁ?! Será que crianças que estão indo para as ruas com seus 7 ou 8 anos têm capacidade de escolher o que será melhor para elas? Ou será que foram as circunstâncias que certamente elas enfrentam em casa que as OBRIGARAM a isso? Penso que TALVEZ, se não todas, a maioria dessas crianças não tiveram escolha, diante de uma casa onde o pai bate na mãe, ou são abusadas, ou os responsáveis estão desempregados e/ou não têm o que comer, ou os pais não deram limites desde que eram bem pequenininhas ou, até mesmo todas essas coisas, e mais um pouco, juntas.
Trabalhei durante um ano em um projeto de extensão da faculdade na qual me formei (PUC Minas) que consistia em oficinas de comunicação para crianças e adolescentes de um dos maiores morros de Belo Horizonte, o Morro das Pedras. Lá pude ver de perto a realidade de crianças como essas da reportagem. Lembro-me de um deles, o meu preferido: dezesseis anos, inteligente, criativo, esforçado, bom aluno. Não conhecia o pai, mãe desempregada, irmão muito doente e não conseguia emprego. Certo dia ele me disse que tinha saído da escola e eu lhe perguntei o que que ele pretendia ser, se não estudasse.
Ele me respondeu: "Querer eu quero ser muita coisa...MAS..." Eu o interrompi e falei: "Não vai mexer com venda de droga não, hein Fulano!"; ao que ele me respondeu: "Ih 'fessôra, 'cê' é play boy, não sabe o que é ser da favela e o que que 'nóis passa!'". Eu simplesmente me calei. Era verdade; eu não sabia nada e ainda não sei. Pouco tempo depois que saí de lá, fiquei sabendo que ele tinha sido preso por venda de drogas.
Quando estamos distantes, no nosso conforto, fora do problema, é muito fácil julgar e dizer que eles ESCOLHERAM ou estão POR LIVRE E ESPONTÂNEA VONTADE nessa vida. Não estão! Há sempre uma explicação, um histórico por trás de cada "escolha". O que é triste é saber que o incentivo é muito maior 'do lado de lá'. O número de gente e de circunstâncias que os empurram para o pior é tristemente maior do que o número dos que tentam fazê-los crescer.
Ah... mas o quê que eu posso fazer? Vou escrever uma matéria com algumas baboseiras pra um jornal ou... sei lá. Quem sabe escrever um texto para algum blog?





